A Fogueira das Vaidades TOM WOLFE


A FOGUEIRA DAS VAIDADES



Hollywood fez de A Fogueira das Vaidades uma black comedy pastelão. Pode-se traduzir black comedy por comédia de humor negro, uma tradução questionada pela patrulha do politicamente correto, que proíbe e censura em nome da liberdade e do direito de expressão. 

A Fogueira das Vaidades (The Bonfire of the Vanities, Tom Wolfe, 1987, Ed. Rocco), não poderia estar mais longe de uma comédia, mas expõe com a merecida ironia a forma opressora e incorreta e, por isso mesmo, injusta e ineficaz pela qual qualquer pessoa, minoria ou não, é usada para servir a interesses diversos. 

O livro narra a queda do céu ao inferno de um investidor do mercado financeiro de Wall Street ao ser acusado de atropelar, na companhia da amante, um jovem negro no lado pobre da cidade, e da movimentação dos diversos setores da sociedade para a solução do caso. Não que haja qualquer preocupação com o destino do jovem atingido pelo carro do figurão de Wall Street. Na Nova York dos anos 80, esqueça o melting pot: ou você é negro, ou irlandês, ou italiano, ou judeu, ou WASP; o sistema penal, sobrecarregado, está tão viciado quanto perdido a serviço dos mais ricos, mas quase sem poder conter a crescente onda de criminalidade e a insatisfação da periferia, por sua vez habilmente capitalizada e manobrada por um líder religioso; a imprensa quer o furo de reportagem, não importando a veracidade ou para quem trabalhe; o mercado financeiro quer o lucro a qualquer preço; e as pessoas nessas instituições vivem alienadas, consumindo objetos como se fossem ícones, e coisificando pessoas como se fossem objetos.

Tom Wolfe (1930 – 2018), em um ponto do romance, menciona a tribo dos Bororos, da região do Amazonas, que acredita não haver um eu individual. Ele mesmo crê que o homem tenha uma identidade fortemente definida pelo grupo ao qual pertença. O romance mostra a queda do herói, de “Senhor do Universo” a mero réu. Porém menos réu de um crime cometido do que da disputa entre a imprensa, o clero, a justiça e o sistema financeiro. No processo, ele vai sendo despido, a contra vontade e de forma abrupta, de todas as suas autodefinições e de sua imaginada importância e supremacia sobre tudo e todos, até que passa a se despir, primeiro por constatação e em seguida por vontade própria, de todas as imagens que tinha de si, numa negação de tudo que se acreditava ser, numa libertação que o leva de volta a sua “origem”.

Começa se achando Senhor do Universo; termina sendo de verdade senhor de si. 

Hollywood sabe, como ninguém, diluir conteúdo sério em gargalhada fácil. Não é prudente propor reflexões sobre o poder de instituições cujo único objetivo é a manipulação para proveito próprio. O narrador, no livro, avisa que Manhattan não é dinheiro, mas o poder que se consegue com ele. Tom Wolfe avisa que o poder que se consegue é meramente emprestado a você.

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