Madame Bovary GUSTAVE FLAUBERT
MADAME BOVARY
Emma Bovary casou-se, mudou-se para Tostes, teve uma filha. E pronto. Madame Bovary (Madame Bovary, Gustave Flaubert, L&PM Pocket, 2010) se resume a isso, e é exatamente isso a causa da desgraça de Emma Bovary. Uma mulher de sua época, suas perspectivas de vida se resumiam em casar-se, ter filhos e nada mais; era o que ela almejava; a que se podia esperar naquela época. Porém, essa existência limitada foi a causa de sua loucura ou aventura, dependendo de qual lado da moral você se encontre ao ler a obra. Emma era perseguida pelo que persegue todos nós: não existe emoção que não se apague com sua satisfação; um desejo conquistado é o fim daquele desejo. E não resta ao louco/aventureiro outra opção senão a de partir para a realização de outro desejo.
Emma é uma sonhadora incansável, alimentada pelos romances que lia, histórias de amor que imaginava possíveis para ela. Tal como os livros, a história só durava até acabar.
A felicidade da heroína é uma monotonia atrás da outra. Como para conseguir realizar suas escapadas ela precisa de dinheiro, é ele também o alvo e motor de seu desejo. E ele também será sua ruína. Sentindo que o tédio a persegue, ela sente a anulação de si. Precisa de estímulos, precisa ser vista, desejada, amada para ter mais que uma existência, para ter uma identidade. Seu marido, um médico de poucos recursos e cujos fracassos profissionais vão levá-lo a grandes problemas financeiros, só faz piorar o tédio de Emma porque devota a ela uma quase devoção, que ela despreza.
Surpreende que um livro escrito por um homem, e há tanto tempo (1856), seja tão fiel às emoções, aos anseios, aos pensamentos de uma mulher que, naquela época, não podia desfrutar de liberdades que hoje tomamos por naturais. Não surpreende que Flaubert tenha sido acusado de imoralidade com esse livro, mas foi absolvido no ano seguinte à publicação da obra. Perguntado se a personagem-título seria alguém da sociedade francesa e quem seria ela, ele respondeu: "Emma Bovary sou eu!" E, pensando bem, nesta época de amores líquidos, para o bem ou para o mal, Emma Bovary sou eu também.
Gustave Flaubert levou 5 anos para escrever o livro, porque era adepto da "palavra certa" e isso o levava a grandes esforços literários. Mas valeu à pena.

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